Quando o Scrum é “só para as equipas”: a transformação que nunca começou
A organização anunciou com convicção:
“Vamos adotar Scrum.”
Mas havia um asterisco invisível.
Scrum seria aplicado apenas às equipas de desenvolvimento.
Líderes, gestores e middle management continuariam exatamente como antes.
O resultado? Previsível.
E mais comum do que muita gente gosta de admitir.
O ponto de partida errado
A empresa (vamos chamá-la de XYZ) queria duas coisas:
Entregar mais rápido
“Modernizar” o desenvolvimento de software
Então fez o que muitas organizações fazem:
Criou equipas Scrum
Introduziu eventos e artefactos
Nomeou Scrum Masters
Mas não investiu um minuto em formação séria em Professional Scrum para liderança e gestão.
Scrum foi tratado como uma prática de equipas.
Não como uma mudança de sistema.
Os sintomas não demoraram a aparecer
Em poucas Sprints, o padrão era claro:
“Responsabilidade” diluída, mas culpa bem distribuída
Avaliação individual constante
Foco obsessivo em cumprir tarefas
Zero conversa sobre resultados, clientes ou impacto
Tudo parecia Scrum.
Nada funcionava como Scrum.
Scrum transformado em comando e controlo
Aquilo que deveria apoiar aprendizagem virou fiscalização:
Daily Scrum: reunião de status para o gestor
Sprint Review: inspeção disfarçada
Scrum Master: gestor de tarefas com outro nome
O framework não mudou a mentalidade.
A mentalidade sequestrou o framework.
Scrum não estava a desafiar o sistema.
Estava a ser usado para reforçá-lo.
De trabalho de conhecimento a operários digitais
A métrica dizia tudo sobre a cultura:
Pull requests contados
Linhas de código medidas
Tarefas fechadas por Sprint celebradas
O trabalho passou a ser tratado como produção em série.
O que deixou de importar:
Resolver problemas reais
Criar valor para clientes
Aprender com o mercado
O que passou a importar:
“Quanto produziste esta Sprint?”
Não era falta de talento.
Era excesso de pensamento industrial aplicado a trabalho de conhecimento.
Onde o Scrum “falhou”?
Não falhou.
O que falhou foi a crença de que Scrum funciona isolado ao nível das equipas.
Scrum exige:
Liderança alinhada com empirismo
Gestão orientada a resultados, não a controlo
Confiança real nas equipas
Sem isso, líderes continuam a operar com modelos mentais antigos, mesmo usando linguagem moderna.
E aqui está un elefante na sala:
Scrum falha por ignorância e também porque ameaça estruturas de poder.
Scrum expõe más decisões.
Reduz controlo hierárquico artificial.
Torna visível quem cria valor… e quem apenas o supervisiona.
Se o Scrum fosse realmente organizacional
Se a liderança tivesse mudado — e não apenas as equipas — o dia-a-dia teria sido diferente:
Sprint Reviews como conversas estratégicas, não checkpoints
Métricas de resultados e impacto, não de atividade
Líderes a remover impedimentos sistémicos, não a pedir status
Equipas a negociar objetivos, não a receber listas de tarefas
Isso exige coragem.
E exige abdicar da ilusão de controlo.
Um espelho para a liderança
Antes de culpar “o Scrum”, vale a pena parar e perguntar:
Quem define o que é sucesso nesta organização?
As equipas podem dizer “não” sem consequências?
Os incentivos recompensam valor… ou obediência?
Os líderes servem o sistema ou protegem o seu lugar nele?
Estas perguntas raramente são feitas.
Porque raramente se gosta das respostas.
A transformação que nunca começou
A XYZ acreditava que estava a “fazer Agile”.
Na prática, estava apenas a:
Trocar eventos sem mudar comportamentos
Adotar rituais sem mexer nos incentivos
Falar de autonomia enquanto reforçava controlo
Scrum não é uma ferramenta de equipas.
É um quadro de trabalho organizacional.
Quando só uma parte muda, o sistema trata de puxar tudo de volta.
Conclusão
Este cenário não é exceção.
É o padrão.
Scrum não falha por ser fraco.
Falha quando é adotado sem compreensão, sem alinhamento e sem coragem na liderança.
Aplicar Scrum apenas nas equipas é como tentar mudar o rumo de um navio empurrando um único remo.
A verdadeira agilidade começa quando toda a organização está disposta a aprender, desaprender…
e aceitar que talvez o problema nunca tenha sido o Scrum.
Se queres saber mais sobre Scrum e agilidade para liderança junte-se a nós no nosso próximo curso PAL-EBM